" PASSAROS ENCANTADOS "

17/06/2011 11:10

 

                                      Passaros encantados

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. 
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: Era encantado. 
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar. 
Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades... 
Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. 
Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. 
Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão. 
Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você.... 
E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira. 
Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro. 
Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça. 
... Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. 
Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes. 
E de novo começavam as estórias. 
A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. 
E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre. 
Mas chegava sempre uma hora de tristeza. 
Tenho que ir, ele dizia. 
Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar..... 
Eu também terei saudades, dizia o pássaro. Eu também vou chorar. 
Mas eu vou lhe contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios... 
E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. 
Se eu não for, não haverá saudades. 
Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar. 
Assim ele partiu. A menina sozinha, chorava de tristeza à noite. 
Imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa destas noites que ela teve uma idéia malvada. 
Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre. 
Nunca mais terei saudades, e ficarei feliz. 
Com estes pensamentos comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. 
Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias diferentes para contar. 
Cansado da viagem, adormeceu. 
Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz. 
Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro. 
Ah! Menina... Que é que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias.... 
Sem a saudade, o amor irá embora... 
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. 
Mas isto não aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente. 
Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. 
E veio o silêncio, deixou de cantar. 
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. 
E de noite ela chorava pensando naquilo que havia feito ao seu amigo... 
Até que não mais agüentou. 
Abriu a porta da gaiola. 
Pode ir, pássaro, volte quando quiser... 
Obrigado, menina. É, eu tenho que partir. É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. 
Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito. 
Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar... 
E partiu. Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia. 
Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo... 
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; e penteava seus cabelos, colocava flores nos vasos... 
Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje... 
Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro. 
Porque em algum lugar ele deveria estar voando. De algum lugar ele haveria de voltar. 
AH! Mundo maravilhoso que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama... 
E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento. 
Quem sabe ele voltará amanhã.... 
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
 
 
 
 
  

 Rubens Alves

Postado Elio Loiola