" APROFUNDANDO-SE MAIS E MAIS PARA CONHECER O ISLAMISMO: NOTAMOS CARACTERÍSTICAS SEMELHANTES AO CATOLICISMO ROMANO " Parte 2

23/09/2011 11:09

 

UM EXAME CRÍTICO E HISTÓRICO DA ADORAÇÃO ISLÂMICA – Parte 2

 

A veneração aos imãs

“Maomé, Fátima (filha do profeta) e os imãs eram vistos como encarnações das inteligências por meio dos quais o Universo foi criado. Os imãs eram vistos como guias espirituais no caminho do conhecimento de Deus: para os xiitas, vieram a ter a posição que os ‘amigos de Deus’ tinham para os sunitas”.13

Procissões

Algo comum no catolicismo é uma romaria ou procissão em devoção a algum santo canonizado pela Igreja Romana. O que poucos sabem é que no Islã os tais “amigos de Deus” também recebem a mesma homenagem, principalmente entre os xiitas.

O dr. Naipaul, em uma de suas viagens por países islâmicos, fez uma observação a esse respeito quando visitava o Irã em 1979, no auge da Revolução Islâmica impetrada por Khomeini. Revolução que, devido ao rigor religioso, punia todas as pessoas, inclusive estrangeiras, que desrespeitassem as normas do Alcorão.

Vejamos o que ele nos informa:

“O islamismo tem seus próprios mártires. Uma vez por ano, desfilam seus mausoléus alegóricos pelas ruas; os homens ‘dançam’ com pesadas luas crescentes, ora balançando as luas de um jeito, ora de outro; os tambores batiam, e às vezes havia combates rituais com varas. As brigas de vara eram uma simulação de uma antiga batalha, mas a procissão era de luto e comemorava a derrota naquela batalha [...] A cerimônia — da qual participavam tanto hindus como muçulmanos — era essencialmente xiita, e a batalha tinha a ver com a sucessão do profeta, que fora travada no Iraque, que o homem especificamente pranteado era o neto do profeta”.14

Quanto à procissão, a teologia bíblica só tem uma resposta, tanto para os católicos como para estes grupos específicos de islâmicos: “Congregai-vos, e vinde; chegai-vos juntos, os que escapastes das nações; nada sabem os que conduzem em procissão as suas imagens de escultura, feitas de madeira, e rogam a um deus que não pode salvar” (Is 45.20).

Superstições islâmicas

“Mais difundida, na verdade praticamente universal no islamismo, era a crença em espíritos e a necessidade de descobrir um meio de controlá-los. Os jinns eram espíritos com corpos de vapor ou chama que apareciam aos sentidos, muitas vezes sob forma de animais, e podiam influenciar as vidas humanas; às vezes, eram maus, ou pelo menos travessos, e, portanto, era necessário controlá-los.

“Também podia haver seres humanos com poderes sobre as ações e vidas de outros, ou devido a alguma característica sobre a qual não tinham controle — o olho mau — ou pelo exercício deliberado de certas artes, que podiam despertar forças sobrenaturais. Era um reflexo distorcido do poder que os virtuosos, os amigos de Deus, podiam adquirir por graça divina. Mesmo o cético (escritor islâmico) Ibn Khaldun acreditava na existência da bruxaria, e que certos homens podiam descobrir meios de exercer poder sobre outros, mas achava isso repreensível. Havia uma crença geral entre os muçulmanos em que tais poderes podiam ser controlados ou contestados por encantos e amuletos colocados em certas partes do corpo, disposições mágicas de palavras e figuras, sortilégios ou rituais de exorcismo ou propiciação, como o zar, um ritual de propiciação, ainda difundido no vale do Nilo”.15

Segundo o historiador Mantran, o próprio Maomé, quando começou a receber a revelação de Alá e do Alcorão, acreditou estar possuído por jinns e até pensou em cometer suicídio16.

O que percebemos com todas essas conjecturas e colocações é que algumas vertentes do Islã, em determinadas localidades, além de terem adotado práticas idólatras do paganismo, abraçaram as superstições dos povos nômades da Arábia, e isso ainda permeia a religião do profeta com toda a sua força mística.

Equilibrando os fatos

Não queremos aqui desqualificar o Islã como mais uma religião monoteísta. Assim como não é justo classificar o cristianismo bíblico como idólatra, também não é razoável qualificar o islamismo alcorânico como tal. Porém, tanto o “cristianismo” expressado pelos católicos romanos, como o “islamismo” expressado pelos muçulmanos xiitas, em alguns pontos se desviam dos padrões sagrados exarados pelos Escritos Sagrados que arrogam professar. Estamos apenas fazendo um exame, de maneira generalizada, sobre pontos comuns no seio teológico da religião islâmica. Aliás, esse é um debate e preocupação que também tem afetado e gerado certa tensão entre os próprios pensadores islâmicos.

O que descrevemos e compilamos nesta matéria é uma censura contra uma religião que, apesar de levantar uma bandeira contra a idolatria e as superstições, abraça em seu rol de adeptos fragmentados grupos que na verdade se condenam em suas próprias práticas religiosas.

Sabemos que idolatria é adoração ou veneração aos ídolos ou imagens, quando usada em seu sentido elementar. Mas também pode indicar a veneração ou adoração a qualquer objeto, santo, pessoa, instituição, ambição, etc, que tomem o lugar de Deus, ou que diminuam a honra que lhe devemos prestar. Assim, idolatria consiste na adoração a algum falso deus, ou a prestação de honras divinas a certas entidades. E quando o islâmico venera a Pedra Negra, faz peregrinação a Caaba, reza ao pé do túmulo de um “santo” (pedindo sua intercessão), está, na verdade, praticando idolatria, pois invoca um intercessor que não é o Deus revelado na Bíblia.

A própria recitação, na qual o indivíduo tem de declarar para se tornar muçulmano, já é comprometedora em si mesma: “Não há outro Deus além de Alá e Maomé é o mensageiro de Alá”. Se Alá fosse de fato o Deus bíblico, não haveria necessidade de invocar um outro nome junto ao seu. A Bíblia diz: “E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos” (At 4.12). A salvação é só para aquele que invoca o nome do único Senhor: “Porque, se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo” (Rm 10.9).

Facções islâmicas

Historicamente, o islamismo tem sido marcado pelo surgimento de movimentos, grupos e correntes de maior ou menor envolvimento político, de linhas fundamentalistas (conservadora) ou moderna. Cada uma delas com uma tendência de interpretação dos conceitos islâmicos. São eles:

Os sunitas: subdividem-se em quatro grupos principais, cada um deles com uma escola de interpretação da sharia17: hanafitas, malequitas, chafeitas e hambanitas. São os seguidores da tradição do profeta Maomé, continuada por All-Abbas, seu tio. Calcula-se que 84% dos muçulmanos sejam sunitas. Para eles, a autoridade espiritual pertence à comunidade. 

Os xiitas: também possuem sua própria interpretação da sharia. Seu nome deriva da expressão “shi at Ali”, partido de Ali, que foi marido de Fátima, filha de Maomé. Seus descendentes teriam a chave para interpretar os ensinamentos do Islã. 

Os sufistas: enfatizam a relação pessoal com Deus e praticam rituais que incluem danças e exercícios de respiração para atingir um estado místico. São membros praticantes do sufismo os faquires18 da Índia e outras regiões da Ásia, e os dervixes19, da Turquia.

Vejamos algumas divergências doutrinárias entre os sunitas e xiitas:

Sobre a intercessão entre Alá e os seres humanos

Sunitas: acreditam que ninguém pode atuar como intercessor entre Alá e os seres humanos. “Diz: a Alá pertence exclusivamente o direito de garantir intercessão. A Ele pertence o domínio dos céus e da terra. No fim, é para Ele que todos serão retornados” (Surata 39:44).

Xiitas: para os muçulmanos xiitas, os doze imames20 podem interceder entre a humanidade e Alá: “...os muçulmanos xiitas devem conhecer seu imame de modo a serem salvos, e os imames, assim como os profetas, claro, podem e intercedem pelos crentes perante deus na hora do julgamento...” (Nasr 1987, 261).

Sobre o papel e a condição dos imames dos dias atuais

Sunitas: para eles os imames xiitas atuais (por exemplo, os aiatolás21) são humanos sem quaisquer poderes divinos, considerados apenas como muçulmanos virtuosos. Já os “doze imames” são particularmente respeitados por sua relação com Ali e sua esposa Fátima, a filha de Maomé. Os sunitas acreditam que Ali e seus dois filhos, Hassan e Hussein, foram altamente respeitados pelos três primeiros califas2 2 e companheiros de Maomé. Os sunitas também consideram herético imputar a seres humanos atributos de natureza divina tais como infabilidade e conhecimento de todos os assuntos temporais e cósmicos. 

Xiitas: acreditam que os imames de níveis mais altos dos dias atuais (aiatolás) recebem sua orientação e iluminação espiritual diretamente dos “doze imames”, em contato contínuo com seus seguidores na terra todos os dias por meio de líderes espirituais contemporâneos. Os aiatolás, portanto, desempenham um papel mediador vital. Por causa de seu papel espiritual, os aiatolás não podem ser designados pelos governantes, mas apenas pelo consenso de outros aiatolás.

Notas:

1 Manual bíblico, Editora Vida Nova, São Paulo, SP, 1991, p.679.
2 História do cristianismo, CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2001, p.97.
3 P. 33.
4 Uma história dos povos árabes, Hourani, A., Editora Cia. das Letras, São Paulo, SP, 2000, p. 161.
5 Expansão muçulmana, Editora Pioneira, São Paulo, SP, 1977, p. 55.
6 Entre os fiéis, Editora Cia. das Letras, São Paulo, SP, 2001, p. 145.
7 Uma história dos povos árabes, Editora Cia. das Letras, São Paulo, SP, 2000, p. 33.
8 Editora Cia. das Letras, São Paulo, SP, p.114.
9 Expansão muçulmana, Editora Pioneira, São Paulo, SP, 1977, p. 52.
10 Dicionário de religiões, crenças e ocultismo, Editora Vida, São Paulo, SP, 2000, p. 231.
11 Uma história dos povos árabes, Editora Cia. das Letras, São Paulo, SP, 2000, p. 167-9, 197.
12 P. 196.
13 Uma história dos povos árabes, Editora Cia. das Letras, São Paulo, SP, 2000, p. 191.
14 Entre os fiéis, Editora Cia das Letras, São Paulo, SP, 2001, p. 21.
15 Uma história dos povos árabes, Editora Cia. das Letras, São Paulo, SP, 2000, p. 211-2.
16 Expansão muçulmana, Editora Pioneira, São Paulo, SP, 1977, p. 59.
17 Também grafada como Charia, é o código de ética, que reforça as doutrinas e as práticas do Alcorão.
18 Monge muçulmano, mendicante, que vive em rigoroso ascetismo.
19 Religiosos muçulmanos que fizeram voto de pobreza.
20 São considerados descendentes da família do profeta Maomé.
21 Líderes religiosos xiitas.
22 Representante de Alá, seu porta-vos e líder do povo. Os quatro primeiros – Abu bakr, Omar, Otmã e Ali – são designados “Califas guiados corretamente” porque não há objeção por parte dos muçulmanos concernente às respectivas alegações que eles fizeram de ser os sucessores de Maomé.