"A VERDADEIRA IGREJA DE CRISTO" Parte 3

17/08/2011 09:15

História da Igreja - Parte 3

 

DE CONSTANTINO AO FIM DA IDADE MÉDIA

Constantino, o imperador romano, conhecido também por Constantino I, o Grande, foi homem de decisões sempre tomadas sob o prisma político.

O Cristianismo constituía, indubitavelmente, um elemento importantíssimo no processo de unificação do Império. Havia uma só lei, um só imperador e uma única cidadania para todos os homens livres. Assim, mister se fazia que houvesse uma só religião oficial do Império, o que contribuiu para grandes prejuízos, principalmente doutrinários, que a Igreja sofreria nos anos posteriores.

Em decorrência disso, a Igreja entrou numa das fases mais difíceis de sua História. A Igreja constituiu-se numa verdadeira força política. O papa tornou-se senhor absoluto da Igreja. Esta que antes dependia só de Deus através da fidelidade de seus líderes e membros, era agora um grande rebanho sem pastor, com as ovelhas em dispersão.

No ano 869 deu-se o inevitável rompimento entre a cristandade do Oriente e a do Ocidente, dividindo a Igreja antes una, em duas: uma com sede em Roma - a antiga sede imperial, e a outra em Constantinopla - atual sede do Império. A partir daí tiveram início lutas amargas por causa de doutrinas e ritos, até 1054, quando o papa de Roma e o patriarca de Constantinopla se desentenderam e se excomungaram mutuamente. Desde aí a Igreja dividiu-se, buscando cada uma para si o direito de ser a verdadeira Igreja Católica [Universal] e recusando à outra qualquer reconhecimento.

Apesar de todos os conflitos que envolviam a Igreja, Deus trouxe à luz, homens cujo compromisso único era pregar e viver o " Evangelho de Jesus ", na simplicidade que tinha no princípio. Foram esses homens que no final da Idade Média prepararam as veredas pelas quais os movimentos reformistas haveriam de trilhar, libertando a Igreja outra vez.

A IGREJA NOS DIAS DE CONSTANTINO

Por crer que o Deus dos cristãos foi seu aliado na luta contra o imperador Maxêncio, após o que viria a se tornar senhor soberano sobre o Império, Constantino beneficiou os cristãos, transformando o Cristianismo em religião oficial do Império.

A Expansão da Igreja

Sem dúvida, a Igreja cresceu com grande rapidez sob a proteção de Constantino. Mais do que isto: tão logo Constantino constituiu a si mesmo patrono do Cristianismo, passou a fazer ofertas vultuosas para construção de templos, sustento de ministros religiosos, inclusive insentando-os de impostos. Apesar de nada entender de teologia, influía decisivamente nos assuntos administrativos e doutrinários da Igreja. Nessa época muitos templos e ídolos pagãos foram destruídos, e pelos idos do ano 400 d.c., o culto pagão já não existia.

Dir-se-ia que para o Cristianismo isto representava retumbante vitória. Entretanto, não era uma vitória real, considerando que a Igreja estava cheia de pessoas que não possuíam o mínimo de conhecimento de Cristo, nem haviam experimentado o novo nascimento bíblico - ponto de partida da verdadeira fé cristã.

A Vida da Igreja

A nova posição da Igreja, dependendo do Império, de modo algum beneficiava a sua vida. A entrada de milhares de pessoas não-salvas em suas fileiras, foi um impedimento à manuntenção da vida verdadeiramente cristã, e ao preparo e desenvolvimento de novos discípulos de Cristo.

Como já dissemos, a maioria dos que faziam parte da Igreja, era formada por gente pagã e de vida por demais tortuosa. Não demorou para que houvesse violenta queda moral da Igreja. Para certos atos julgados imorais, haviam severas penas, enquanto que para ofensas menores, havia penitências, tais como: confissões públicas, jejum e orações. Para faltas mais graves, havia excomunhão.

Por esse tempo, mesmo em meio ao grande declíneo moral e espiritual da Igreja professa, muitos cristãos sinceros tornaram-se sedentos por uma vida mais elevada, mais profunda, mais santa e piedosa do que eles viam ao seu redor. Disso surgiu uma forma de vida que estava destinada a se tornar uma das mais poderosas forças na História do Cristianismo - a vida monástica. Muitos homens tornaram-se monges, com o expresso desejo de salvação.

Como nos primeiros séculos do Cristianismo o mundo era de formação religiosa eminentemente pagã, a própria Igreja mostrou pouca força na luta contra o paganismo. Por isso, nessa época, os males que eles não podiam evitar, impetrava sobre eles a sua bênção e os fazia parte comum da vida dos seus membros. Assim, os que desejavam uma vida santa de modo agradar a Deus, acharam que a única maneira de alcançar esse nível de vida era afastando-se da sociedade má e da Igreja como comunidade. O aspecto da vida cristã comgregacional aos poucos deteriorava-se.

No século VI foi organizada por Bento de Núrsia, na Itália, a famosa ondem dos beneditinos. Em pouco tempo tornou-se praticamente a lei geral da vida monástica em todo o Ocidente. Do monge era exigido: abandono de propriedade, abstinência, ou seja, afastamento de certos alimentos, obediência dos superiores, silêncio, meditação, renúncia, humildade e fé.

O Declíneo da Igreja

Os bispos tornaram-se os chefes da Igreja; prevalecendo entre eles a ambição de porder. Meios ilícitos, os mais vergonhosos, eram empregados neste sentido.

Diz o historiador Giblons: " Enquanto que um dos candidatos ao bispado ostentava as honras de sua família, um segundo atraía os juízes pelas delícias de uma mesa farta, e, um terceiro mais criminoso que os seus rivais, propunha repartir os saques da Igreja entre os cúmplices de suas aspirações sacrílegas ".

O ofício do bispo,que até então tinha sido assinalado pela humildade e trabalho, transformou-se num poço de explendor profano, de arrogância, de opressão e suborno. A Igreja perdera, em suma, a sua humildade. Tornara-se rica, poderosa, respeitável, mas corrupta. Aqueles que haviam se tornado os líderes da Igreja, tornaram-se ditadores segundo o espírito do Império. Em suma: o reinado de Cristo fora rejeitado ! Em seu lugar surgiram uma trindade de reinados - reinado do céu, reinado de Roma e reinado da Igreja ! Evidentemente, o Cristianismo puro, simples e maravilhoso de Jesus, o Nazareno, fora conspurcado ! A Igreja do Cristo vivo perdera a sua dignidade ! Estava em decadência !

OS ÚLTIMOS ANOS DE CONSTANTINO

Os últimos anos de Constantino não foram diferentes daqueles que ele passou na conquista do Império, nem pelos transcorridos ao curso do seu governo. Isto é, foram assinalados por lutas, polêmicas, desentendimentos, invejas e constantes divergências.

Vitória e Derrota

Na verdade, a vitória de Constantino sobre o imperador Maxêncio, e depois sobre Licínio, valendo-lhe a posição de imperador romano, foi uma vitória relativa; talvez tivesse sido uma derrota !

Enormes foram as transformações pelas quais passou a Igreja Cristã, a maioria das quais foram fruto da ação do próprio imperdor. No entanto, nem todas as transformações foram vantajosas.

Se é verdade que as perseguições cessaram e o crescimento numérico da Cristandade rapidamente aumentou sob a proteção imperial, não menos verdade é que discussões doutrinárias, que em épocas anteriores teriam sido tratadas como tais, agora assumiram foros de problemas políticos de grande magnitude, e o imperador assumira, em questões eclesiásticas, tal parcela de autoridade, que ameaçava o futuro da Igreja.

Favores ao Cristianismo

Constantino também deixou leis fazendo do domingo - o dia da reunião dos cristãos, o dia semanal de descanso, proibindo nele todo o trabalho, e permitindo que os soldados cristãos assistissem aos cultos nas igrejas.

Quando Constantino adotou o Cristianismo como a religião oficial do Império, existiam somente cerca de 6 milhões de cristãos em todo o Império. Porém, agora que o Cristianismo fora apoiado e aprovado como religião oficial, e imposta à espada, grande parte do mundo de então passou por um batismo de sangue. Desse modo indigno o pseudo-cristianismo foi reconhecido por toda a parte como a religião dominante no Ocidente.

Lamentavelmente, a Igreja oficializada pelo Império Romano, não mais era a Igreja de Jesus Cristo e de Seus Apóstolos !

Ao morre Constantino em 22 de maio do ano 337, a fé proclamada por ocasião do Concílio de Nicéia, parecia, se não oficialmente renegada, praticamente minada.

Apesar de ter feito do Cristianismo a sua bandeira de guerra, Constantino nunca se deixou batizar, o que só aconteceu no momento da sua morte, ato celebrado por Eusébio de Nicomédia. Achou ele mais seguro morrer nos braços da Igreja; assim seria, a seus olhos, absolvido dos muitos erros praticado em vida.

Com a morte de Constantino, a quem certo historiador chamou de " O grande cristão de alma pagã ", a Igreja ficou ferida mortalmente, só não morrendo porque a graça de Deus veio-lhe em socorro.

A IGREJA DA IDADE MÉDIA

As constantes guerras de conquista na Europa Ocidental, no período da Idade Média, atingiram profundamente a Igreja, que era então mais uma força política que uma extensão do reino de Deus na Terra. O papa tornara-se o senhor absoluto da Igreja que se estendia por todo o território do antigo Império Romano. Aquela que antes dependia só de Deus, tornara-se agora um negócio de homens.

A Vida da Igreja

O declíneo moral e espiritual pelo qual passava a Igreja no período da Idade Média, refletia-se em todos os seus aspectos e em todos os lugares. Veja-se, por exemplo, a situação da Igreja na França, nos séculos VII e VIII, antes de Bonifácio, o missionário inglês, introduzir nela um pouco de decência e ordem. A maioria dos sacerdotes era constituída de escravos foragidos ou criminosos que alcançaram a posição sacerdotal, sem qualquer ordenação. Seus bispados eram considerados como propriedades particulares e abertamente vendidos a quem oferecesse mais. O arcebispo de Ruão não sabia ler; seu irmão, de Treves, nunca fora ordenado...Embriaguez e adultério eram os menores vícios de um tal credo que havia apodrecido até à medula.

Não há nenhum exagero em dizer-se que por toda a Europa, o número de sacerdote envolvidos com escândalos era bem maior que os de vida honesta. Não somente prevalecia a ignorância e o abandono de seus deveres para com as paróquias aos seus cuidados; tais " sacerdotes " eram acusados de roubo e venda de ofícios. O próprio papado, por mais de 150 anos, a partir de 890, foi alvo de atos altamente vergonhosos e vis. O ofício, antes honrado por Gregório I e Nicolau, foi alvo de toda a sorte de misérias. Alguns dos que ocupavam o trono papal foram acusados dos mais detestáveis crimes. Durante anos, uma família de mulheres ímpias dominou o papado que era entregue a quem elas queriam.

O Culto e a Religião Popular

O Culto que a Igreja da Idade Média ministrava ao seu povo e a ministração dos sacramentos, ocupava a maior parte da adoração, de maneira especial, a missa. Os sacrementos eram sete: 1) Batismo; 2) Confirmação; 3) Eucaristia; 4) Penitência; 5) Extrema-unção; 6) Ordem; 7) Matrimônio.

Os sacerdotes ensinavam que o simples cumprimento desses sacrementos, era fator determinante para a salvação.

A missa era o elemento central do culto - o maior de todos os sacramentos. Era celebrada com muito esplendor por meio de cerimônias, movimentos, vestimentas riquíssimas, música solene, belíssimos templos. Muita coisa só para ser vista e ouvida, tudo com o objetivo de impressionar o espírito através dos sentidos.

O culto aos santos, principalmente à Virgem Maria, tinha muito significado para o povo. Qualquer história que tratasse de milagres, era ouvida e acatada respeitosamente por todos, como por exemplo, a do comerciante de Groningen que roubara um braço de João Batista, de um certo lugar, e o escondera na própria casa. Cria-se que quando um grande incêndio destruiu a cidade, somente a sua casa escapou.

O supremo Deus revelado por Cristo já não era o único a quem era dirigido o culto. Grande número de outros seres eram cultuados em igualdade com Deus, e até mais que Deus; isso devido à veneração dos mártires, iniciada no século II. O próprio Constantino mandou erigir um templo em honra a Pedro, enquanto que Helena, sua mãe, chegou a empreender uma viagem a Jerusalém, para ver a verdadeira cruz na qual Cristo foi crucificado, pois corria a notícia de que a mesma havia sido encontrada.

Os cristãos viam nos mártires, seus heróis espirituais e passaram a aceitar a idéia de vê-los como seus intercessores junto a Deus, e de tê-los como seus protetores. Assim desenvolveu-se rapidamente o espírito de idolatria no povo.

A canonização de pessoas - isto é, a elevação à santidade, de alguém falecido, era realizada por um processo regular e dependia das decisões papais. Logo surgiu o costume de peregrinações a sepulcros de "santos" e chamados "lugares sagrados". A mais meritória de todas as peregrinações era, naturalmente, à Terra Santa. Criam que essa viagem uma vez feita, garantia o perdão de todos os pecados que uma pessoa pudesse ter cometido.

Não obstante o negro véu espiritual que cobria a Igreja por toda a Europa, não raro, aqui, ali e acolá, ouvia-se uma voz sincera, expressando a necessidade de mundança para melhor. Mas, logo essa voz era silenciada pela força da anarquia religiosa reinante na época.

A Riqueza da Igreja

Desde o imperador Constantino, o clero vinha isento do pagamento de imposto. Ora, se os homens ricos fossem ordenados, consideráveis somas em dinheiro deixariam de entrar para os cofres do Estado. Para evitar que isso acontecesse, os governos posteriores dispuseram que só fossem ordenados para o sacerdócio os de "pequena fortuna". Como resultado disto eram recrutados homens não apenas de poucas posses, mas também de pouca ou nenhuma informação.

Agora a Igreja passou a receber não só ofertas dos fiéis, mas foram-lhe dadas muitas extensões de terras, como também inúmeros edifícios construídos para fins religiosos. Assim a Igreja tornou-se rica e proprietária na Europa Ocidental. Por exemplo, a Igreja dominava a quarta parte dos territórios da França, Alemanha e Inglaterra. Ela possuía de igual modo muitos bens na Itália e na Espanha. Rendas incalculáveis de todas essas terras enchiam os cofres da Igreja, isso sem falar do dinheiro arrecadado na venda das indulgências.

O controle desses bens estava nas mãos dos bispos. Uma disposição do papa Simplício ( 468 - 483 ) determinou a divisão da renda da Igreja em quatro partes: uma para o bispo, uma para os demais clérigos, outra para manutenção do culto e dos edifícios, e a última para os pobres.