" TODO AQUELE QUE LÊ E GUARDA AS PALAVRAS DESTE LIVRO É BEM AVENTURADO " Parte 4

17/09/2011 13:19

 A Chave Para Interpretar o Apocalipse

      Em cada livro da Bíblia, há um versículo-chave, pelo qual todo o livro pode ser aberto. E por isso nós esperaríamos encontrar o verso-chave no Apocalipse a fim de termos também o esboço desse livro. Onde está esse versículo? O Senhor Jesus pessoalmente comandou João que escrevesse esse livro; então, vejamos como João recebeu essa comissão: “escreve, pois, as coisas que viste, e as coisas que são, e as coisas que serão depois dessas” (1.19). O Senhor deu a direção para João escrever três elementos: primeiro, as coisas “que [João] viste”; segundo, “as coisas que são”; e terceiro, “as coisas que serão depois destas”. E João escreveu de acordo. No momento em que ele estava para escrever, ele já havia tido uma visão; por isso, a primeira coisa  que ele devia escrever era o registro da visão que ele tinha acabado de ver. João continuou então a mencionar “as coisas que são” e concluiu com “as coisas que serão depois dessas”. E, assim, esse único versículo da Escritura faz alusão às coisas do passado, do presente e do futuro.

Três Principais Divisões do Livro de Apocalipse

      Tomando isso como uma chave, então, o livro de Apocalipse deve ser dividido em três partes principais. Com vinte e dois capítulos no livro, como são feitas as três divisões? Antes de tocarmos na primeira e segunda divisões, comecemos olhando para a terceira divisão. Há um versículo no capítulo 4 que evidentemente indica que a terceira divisão começa naquele capítulo: “Depois dessas coisas,” disse João, “eu vi, e eis uma porta aberta no céu, e a primeira voz como de trombeta, que eu ouvi falar comigo, disse: sobe aqui, e te mostrarei as coisas que devem ser depois dessas” (4.1). “As coisas que devem ser depois dessas” devem ser coisas depois desses três capítulos. Apocalipse 1.19 indica que a terceira divisão fala das “coisas que devem ser depois dessas”, e as coisas que João viu do capítulo 4 em diante são de fato “as coisas que devem ser depois dessas”. Dessa forma, é evidente que a sua terceira divisão do Apocalipse começa no capítulo 4 ( e desde que o livro tem apenas três divisões, a terceira divisão deve ser do capítulo 4 ao 22). Isso deixa apenas os primeiros três capítulos para a primeira e segunda divisões do livro. Apocalipse capítulo 1 é concernente ao que João viu. O versículo 11 diz “o que vês, escreve-o em um livro”, e no verso 19 João é ordenado que “escreve, pois, as coisas que viste”. Entre esses dois versículos João viu a visão, a qual constitui aquilo que ele viu. A primeira divisão do livro é, por isso, o capítulo 1. Desde que aprendemos que todo o livro pela sua própria indicação deve ser dividido em três divisões principais, e já que também aprendemos que a primeira divisão é o capítulo 1 e que a terceira divisão vai do capítulo 4 até o fim do livro, pode-se racionalmente concluir que a segunda divisão principal do livro deve ser os capítulos 2 e 3. Nesses capítulos nós encontraremos “as coisas que são”, as quais são as coisas concernentes à Igreja.

      João viveu na era da Igreja, e por isso a Igreja é reconhecida como “as coisas que são”. Os capítulos 2 e 3 dão a história profética da Igreja do seu começo ao seu fim. Começa com os Efésios abandonando o seu primeiro amor (2.4) e termina com os Laodicences sendo vomitados da boca do Senhor. A historia inteira da Igreja está dessa forma sendo delineada por essas sete igrejas locais. Desde que “as coisas que devem ser depois dessas” seguem “as coisas que viste” e “as coisas que são”, os conteúdos registrados do capítulo 4 em diante devem esperar até que a história da Igreja possa ser cumprida para que sejam cumpridos. Embora hoje o fim esteja de fato se aproximando, nós devemos admitir que a Igreja ainda existe na terra; e que, dessa forma, o seu tempo ainda não está totalmente cumprido.

      Esse é o ensino das Escrituras. Apocalipse 1.19 é de fato a chave que destranca o mistério que rodeia esse livro. E, a partir deste verso, nós temos agora obtido uma verdadeira interpretação.

A Mensagem, o Estilo e a Natureza do Livro de Apocalipse

Embora Cristo seja o tema desse livro, também são registradas as coisas do fim dessa era. Todas as coisas que estão para acontecer levam ao tratado do reino de Deus. Por isso, esse é um livro de profecia.

Essa natureza profética é claramente definida tanto no início como no fim do livro (ver 1.3; 22.7,18,19). Através de muitas visões, a mensagem desse livro prediz os eventos que se aproximam.

      Os iniciantes podem ficar confusos pelos muitos símbolos nesse livro. Eles podem considerá-los muito alegóricos para serem entendidos. No entanto, realmente não é tão difícil como possamos pensar. Embora haja muitos símbolos, muitos deles já foram explicados no próprio livro. Os leitores deveriam consequentemente confiar no poder de Deus e ler a Sua palavra com diligência e paciência. Se é necessário paciência na busca por conhecimentos mundanos, quanto mais paciência é preciso ter na busca pelas coisas espirituais!(GT) Há pelo menos 14 símbolos que já foram explicados. E os não explicados talvez nem excedam esse número.

(1) Candeeiros simbolizam as igrejas (1.20).

(2) As estrelas são os mensageiros (ou anjos) das igrejas (1.20).

(3) O fogo representa o Espírito Santo (4.5).

(4) Chifres e olhos também representam o Espírito Santo (5.6).

(5) O incenso simboliza as orações dos santos (8.3, 4).

(6) Dragão fala de Satanás (12.9).

(7) Os sapos são os espíritos imundos (16.13).

(8) A Besta tipifica um rei (17.12).

(9) As cabeças da besta correspondem a colinas (17.9).

(10) Os chifres da besta correspondem a reis subordinados (17.12).

(11) As águas representam povos (17.15).

(12) A mulher simboliza a grande cidade (17.18).

(13) Linho fino representa a justiça (19.8).

(14) A esposa do Cordeiro é a cidade de Deus (21.9, 10).

      Por isso, não tratem esse livro como se fosse de símbolos. Embora haja mais de trinta símbolos, a metade deles já foi explicada. Em média, há menos de um símbolo por capítulo para ser encontrado; e, consequentemente, o livro de Apocalipse verdadeiramente não pode ser rotulado como um livro de símbolos. As profecias em suas páginas são de dois tipos: direta e indireta. As profecias indiretas têm a forma de símbolos; mas, como já mencionamos, esses símbolos não foram colocados em total escuridão, já que metade deles já foi explicada. Dessa forma, os leitores não deveriam ficar intimidados por esses símbolos, mas deveriam distinguir os explicados dos não-explicados, e procurar descobrir os seus significados.

      A despeito da adoção dos símbolos como um estilo de escrita, nós não devemos espiritualizar o livro em todo. Nós devemos manter em mente uma coisa importante: o Apocalipse é um livro aberto (ver  22.10), não é como Daniel, que é um livro selado (ver 12.4). É chamado “a Revelação de João” e, por essa razão, todas as coisas registradas nele estão abertas para serem entendidas. É escrito de acordo com fatos, e por isso pode ser tomado literalmente. Assim como os conteúdos futuros registrados no fim do livro são milagres atuais, como ressurreição, arrebatamento, aparecimento, e assim por diante, as coisas dadas na parte inicial do volume devem também ser atuais – nesse caso, punições –desde que esse é um livro de unidade. Nós ouvimos que há 119 profecias no Velho Testamento a respeito do Senhor Jesus. Como estão cumpridas essas profecias? Toas elas estão cumpridas literalmente. Por exemplo, uma virgem dando à luz um filho, Belém, a vinda do Egito, as trinta peças de prata, e assim por diante, foram todas literalmente cumpridas.

      Além desses símbolos, o resto do livro contém os dizeres evidentes de Deus. Nós aprendemos que significados espirituais e ensinamentos estão implícitos. Mas essas partes figurativas  devem ser explicadas literalmente. Por exemplo, na abertura do sétimo selo, nós descobrimos que sete anjos estão prontos para soprar as trombetas. No soar das sete trombetas há saraiva e fogo, sangue, montanha, mar, estrelas, lua e sol, e assim por diante. Por um lado, tudo isso deve ser tomado literalmente, embora ainda possamos derivar muitos significados espirituais e ensinamentos disso. Por outro lado, não devemos aceitar meramente os seus significados espirituais e rejeitar o horror das punições literais.  Aqui nós vemos a sabedoria de Deus. Ele esconde significados espirituais na carta para que também aqueles que têm aprendido de Deus possam descobrir o mais profundo ensinamento por trás dela. No entanto, esses crentes comuns também podem aprender diretamente a respeito do verdadeiro fenômeno das futuras tribulações. A palavra de Deus é revelada a bebês (Mat. 11.25). Como pode um bebê entender o livro de Apocalipse se é tão profundo como algumas pessoas dizem? Nós louvamos ao Senhor, por que a despeito de algumas passagens difíceis no Apocalipse, muitas delas são para aplicação literal, e por isso bebês em Cristo podem entender o livro. Nós também louvamos ao Senhor porque, embora o livro de Apocalipse seja tão singelo que os crentes comuns possam conhecer muito a respeito dele, da mesma forma oferece muitos materiais para pesquisa ao melhor dos cérebros humanos. Nosso Deus é de fato Deus!

      O caráter do livro de Apocalipse é justo, do início ao fim manifesta a justiça de Deus. Não é fácil encontrar nele a graça de Deus; mesmo com a Igreja, ele revela a estreita disciplina do Senhor. É, de fato, um livro de julgamento. Nele nós vemos como Deus julga a sua Igreja, os Judeus, e as nações. Ele revela o Senhor Jesus e manifesta o seu julgamento

      Devido ao seu caráter ser diferente dos outros livros do Novo Testamento, muitas pessoas julgam o Apocalipse muito difícil para entender. No entanto, não é realmente difícil de saber. A Igreja tem falhado, então o Senhor só pode recorrer ao julgamento. O registro dos capítulos 2 e 3 é a sombra do iminente julgamento de Cristo (2 Cor. 5.10). Com exceção dos capítulos 4 e 5 que narram conteúdos de transição, todo o registro do capítulo 6 através do capítulo 19 pertence ao tempo do último sete dos setenta setes de Daniel. Os setenta setes Daniel caem dentro da  dispensação da lei. A dispensação da graça foi inserida entre o sexagésimo nono sete e septuagésimo sete. Assim que a dispensação da graça é concluída, o septuagésimo sete começa, e ainda pertence à dispensação da lei. Por isso todas as coisas mencionadas do capítulo 6 através do capítulo 19 voltam à dispensação da lei. Não é de admirar que o seu caráter seja tão justo.

      Devido ao seu caráter justo e legal, o livro carrega nele muito do tempero judaico. Nesse livro a Igreja é apresentada em termos um tanto diferentes do que é descrita nos escritos de Paulo. Embora o livro de Apocalipse seja escrito em grego, como nos escritos de Paulo, o livro emprega muitos Hebraísmos – como Abadom, por exemplo, e assim por diante. Até mesmo os nomes do nosso Senhor têm conotações judaicas, como Jeová Deus. O Evangelho de Mateus cita o Velho Testamento 92 vezes; o livro de Hebreus cita-o por volta de 103 vezes; mas o livro de Apocalipse faz isso cerca de 285 vezes!  Isso prova que o livro de Apocalipse mostra como Deus há de retornar ao território do Velho Testamento, de acordo com o qual tratará com as nações e com os judeus. Não esqueçamos que a salvação vem dos judeus. Por essa razão os santos do Senhor devem aprender a amar os Judeus e a não rejeitá-los. Nós devemos amar os eleitos do Senhor.

Salvação e Recompensa

Nós agora vimos que o livro de Apocalipse é um livro de justiça. Todavia, para que possamos apreciar seus justos efeitos, precisamos fazer uma distinção entre salvação e recompensa. A palavra de Deus apresenta uma clara distinção entre essas duas palavras. Aquilo que Deus dividiu, que o homem não ajunte. Consideremos esse assunto cuidadosamente e vejamos o contraste entre elas. 

      A salvação é aquilo que é dado de graça. Não é obtida por meio das obras do homem. Pois é Deus que nos dá graça, e não é na base do nosso mérito.

      “Ó vós todos os que tendes sede [aponta para o pecador], vinde às águas [aponta para a salvação de Deus], e vós que não tendes dinheiro [aponta para as obras e ou atos de justiça]; vinde, comprai e comei [significa que todos os pecadores podem crer e serem salvos]; sim, vinde e comprai vinho e leite [significa a alegria da salvação] sem dinheiro e sem preço [aponta para o fato de que não há necessidade de bons feitos, desde que não depende da bondade de alguém]” (Is. 55.1).

“O dom de Deus” (João 4:10).

“O dom gratuito de Deus é a vida eterna” (Rom. 6.23).

“Pela graça sois salvos, por meio da ; e isso não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que nenhum homem se glorie.” (Ef. 2.8, 9).

“Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito; mas, segundo a sua misericórdia ele nos salvou” (Tito 3.5).

“E quem quiser tome de graça da água da vida” (Apoc. 22.17).

      Através desses versos que foram citados e por muitas outras passagens da Escritura que não foram citadas, é provado sem nenhuma dúvida que nós recebemos nossa salvação gratuitamente e não pelas nossas obras ou atos de justiça; nós somos salvos pela graça de Deus, o dom gratuito de Deus. Tudo o que fazemos é crer. Pois a obra da salvação é completamente operada por nós pelo Senhor Jesus. A Sua morte na cruz consumou a nossa salvação. Para que agora sejamos salvos e recebamos a vida eterna, não há necessidade de que executemos mais obras ou que acrescentemos mais  méritos, mas simplesmente que creiamos e recebamos. Isso porque nenhuma das nossas boas obras é aceitável para Deus. Ao longo de todo o Novo Testamento há cerca de 150 menções do tipo: crê, e serás salvo; crê, e terás vida eterna; crê, e serás justificado. Assim que nós cremos, somos salvos, recebemos vida eterna, e somos justificados. Isso tudo é dado gratuitamente: “... o testemunho é esse, que Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está no Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5.11, 12). Todos os que recebem o Senhor Jesus como Salvador pela fé têm vida eterna, de acordo com a Palavra de Deus. Verdadeiramente, “aquele que crer no Filho tem vida eterna” (João 3.36). Crê e terás!

      A recompensa, no entanto, é um assunto diferente. Não é algo que recebemos de graça; deve ser obtida através das boas obras. É dada de acordo com os atos de cada santo. Vejamos as seguintes Escrituras.

      “Meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra” (Apoc. 22.12). Note que essa palavra é dita à Igreja (ver v.16).

“Cada um receberá a sua recompensa de acordo com o seu próprio trabalho” (1 Cor. 3.8).

“E, tudo quanto fizeres, fazei-o de coração, como ao Senhor e não aos homens; sabendo que do Senhor recebereis o galardão da herança... Mas aquele que fizer agravo receberá o agravo que fizer” (Col. 3.23-25).

“Ora, àquele que faz qualquer obra, a recompensa não é reconhecida como graça” (Rom. 4.4).

      Há muitas outras Escrituras que poderiam ser citadas, mas essas acima são suficientes para provar que a recompensa não é recebida de graça. De acordo com o ensinamento bíblico, a recompensa é acrescentada às boas obras do crente. Por mais insignificante que seja um copo de água (Mat. 10.42), ou por mais oculto que seja o conselho do coração, (1 Cor. 4,5) ou por mais humilde que seja o serviço de alguém (Marcos 10.43) ou por mais desconhecido seja o sofrimento por amor do Senhor (Luc 6.22)–todas essas obras ou atitudes ainda poderão ter a oportunidade de serem recompensadas. (cf. Luc 6.23).

      De acordo com a Bíblia, o alvo que é colocado diante de uma pessoa é duplo: quando nós somos ainda pecadores, nosso alvo é a salvação; depois de termos sido salvos e nos tornado crentes nosso alvo é a recompensa. Pois a salvação é para os pecadores, enquanto que a recompensa é para os crentes. Os homens devem primeiro receber a salvação, e então sair à busca da recompensa. Os que perecem precisam receber salvação; e os salvos precisam ganhar a recompensa. Ao lermos Coríntios 9.24-27 e Filipenses 3.12-14, nós podemos prontamente ver que alguns crentes falham em obter a recompensa.  Por que nessas duas passagens, Paulo fala sobre recompensa e não sobre salvação. Ele sabe muito bem que ele é salvo. Na suas outras epístolas, ele frequentemente se expressa como alguém que recebeu graça. Mas nessas duas passagens, ele nos fala daquilo que ele está buscando depois de ter sido salvo, e isso é a recompensa. Nesse momento ele não ousa dizer que com certeza ele atingiu a salvação; pelo contrário, ele ainda a persegue. Os pecadores devem buscar a salvação, ao passo que os salvos devem buscar a recompensa.

      Não importa o quão corrupto um pecador pode ser, se ele deseja crer no Senhor Jesus como Salvador, ele será instantaneamente salvo. Uma vez salvo e regenerado, ele deve procurar desenvolver essa nova vida nele e servir ao Senhor fielmente a fim de que possa obter a recompensa. Ele é salvo por meio da obra de Cristo, ele é recompensado pelas suas próprias obras. Ele é salvo por meio da fé; ele é recompensado pelas obras. Deus quer salvar um pecador indigno, mas Ele não recompensa um crente indigno. Antes que alguém conheça ao Senhor, se ele quer reconhecer a si mesmo como pecador, e se ele vir ao Senhor Jesus e crer na Sua morte substitutiva na cruz, ele será salvo e a benção eterna será garantida para ele. Mas, de acordo com as Escrituras, depois de ter sido salvo ele será colocado por Deus na carreira da vida para que ele possa trilhá-la. Se ele vencer, será recompensado. Se ele for derrotado, não será recompensado. No entanto ele não perderá a vida eterna por causa da sua derrota. Pois a salvação é eterna. Aqui nós encontramos o mais equilibrado ensinamento, a perfeita verdade. Infelizmente, algumas pessoas conhecem apenas a salvação. Eles se contentam com meramente terem sido salvos e não se importam com a recompensa.

      Quão triste é que as pessoas tenham misturado salvação com recompensa. Eles julgam que a salvação é mais difícil, exigindo seus supremos esforços de autodisciplina para atingi-la. Mas esse não é o ensinamento da Bíblia. As Escrituras consideram a salvação como aquilo que é mais fácil de alcançar; pois o Senhor Jesus, por Sua própria iniciativa, já cumpriu tudo por nós. Mas as escrituras consideram a recompensa como aquilo que é um tanto difícil de obter porque depende das obras que, por nossa própria iniciativa, cumprimos através de Cristo.

      Vamos ilustrar essa questão dessa forma. Suponhamos que um homem rico abre uma escola gratuita. Todos os que a freqüentam são livres de todas as despesas já que esse homem rico paga por todas elas. Mas aqueles que alcançam excelência em aprender recebem uma recompensa especial. Da mesma forma, a  salvação pode ser comparada com entrar nessa escola gratuita. Todos os que querem vir ao Senhor Jesus são salvos porque Ele mesmo pagou o custo da salvação. É muito fácil tornar-se um estudante nessa escola gratuita, já que não custa nada. Simplesmente vir já é suficiente. Da mesma maneira, então, a salvação é o mais fácil. Ninguém precisa fazer nada, a não ser crer. Mas para aquele que já é contado entre os estudantes, obter recompensa não é tão fácil; ele deve trabalhar duro. Similarmente, não é tão fácil para um crente ganhar as recompensas divinas; ele deve ter boas obras.

Que nenhum leitor pense que é o suficiente ser salvo e deixe de buscar a recompensa da mesma forma. Para qualquer pessoa verdadeiramente nascida de novo, o Senhor a está chamando para perseguir a excelência espiritual – para obter recompensa. E deveria ser para ele uma coisa natural persegui-la e obtê-la. Ainda que não para seu próprio benefício, mas para ganhar o coração e a alegria de Deus. Pois qualquer que é recompensado pelo Senhor tem alegrado o Seu coração. Assim como um pecador deve ser salvo, também um crente deve ser recompensado.  A recompensa para um crente é tão importante como a salvação para um pecador. Se um santo fracassa em alcançar a recompensa, não significa que ele sacrificou o seu lucro, mas apenas indica que a sua vida não é santa, seu labor não é fiel e que ele não tem manifestado o Senhor Jesus durante os seus dias de peregrino.

Ensinamentos recentes têm oscilado entre dois extremos. Alguns julgam a salvação como sendo algo tão difícil que demande muito das pessoas. Dessa forma, eles anulam a morte substitutiva e a obra da redenção do nosso Senhor Jesus. Tal ensinamento põe toda a responsabilidade no homem e ignora aquilo que a Bíblia diz sobre nós sermos salvos pela graça através da fé. Alguns outros pensam que, já que tudo é de graça, então todos os que crêem no Senhor Jesus serão não apenas salvos mas também recompensados com glória e reinarão no futuro com o Senhor Jesus. E assim eles lançam toda a responsabilidade sobre Deus e negligenciam o que é observado nas Escrituras: que alguns crentes – apesar de serem salvos – sofrerão perda, todavia pelo fogo. (1 Cor. 3.15).

No entanto, há um ensinamento mais equilibrado aqui. Antes que um crente seja salvo, o Senhor Ele mesmo carrega a sua responsabilidade; depois que o pecador crê, ele deve carregar a responsabilidade por si próprio. A obra da salvação é totalmente operada pelo Senhor por ele, então crer já é o suficiente. Mas essa questão da recompensa depende apenas das obras do crente, e, portanto crer somente não é adequado. Assim como um pecador não pode ser salvo por boas obras, um santo não pode ser recompensado por apenas crer. A salvação é baseada na fé; a recompensa é julgada pelas obras. Sem a fé, não há salvação; sem obras, não há recompensa. Se estudarmos cuidadosamente o Novo Testamento, nós perceberemos o quão claramente Deus separa a salvação da recompensa. A salvação é para os pecadores, mas a recompensa é para os santos.(GT) Ambas são dadas divinamente: pecadores devem ser salvos e santos devem ser recompensados. Deixar passar qualquer uma delas causaria grande perda. Não misturemos, então, salvação e recompensa.

O que é salvação? É não perecer, mas ter vida eterna. Isso é o que todos nós conhecemos. No entanto, isso não determina nossas posições na glória, já que isso é determinado pelas recompensas. O que é recompensa? Pelas Escrituras  podemos ver que recompensa é reinar com Cristo durante o reino milenar. Todo o crente tem a vida eterna; mas nem todo crente será recompensado  com o direito de reinar com Cristo.  O reino dos céus no Evangelho de Mateus aponta para a parte celestial do  reino milenar – ou seja, aponta para o nosso reinado com Cristo. Todo o leitor cuidadoso do Evangelho pode ver a diferença entre vida eterna e o reino dos céus. Para ter vida eterna é requerido apenas fé, mas para ganhar o reino dos céus demanda violência a si mesmo (ver Mat. 11.12). Assim como ser salvo é ter vida eterna, ser recompensado é entrar no reino dos céus.

Apressemo-nos em direção a esse alvo. Que Deus nos habilite para abandonarmos tudo por amor dEle, a fim de que recebamos o Seu galardão. Ser salvo é algo presente e instantâneo, porque está escrito na palavra de Deus que aquele que crê tem a vida eterna (veja o Evangelho de João). A recompensa é algo no futuro, pois a Escritura diz que quando o Senhor vier, “então cada homem receberá o seu louvor de Deus” (I Cor. 4.5). Salvação é agora, galardão é depois. Não misturemos os dois, porque há uma grande diferença entre os princípios que governam salvação e recompensa. A salvação mostra a graça de Deus porque Ele não nos recompensa de acordo com nossos pecados, antes salva todos nós que cremos no Senhor Jesus. A recompensa expressa a justiça de Deus porque Ele recompensa os santos de acordo com as suas boas obras. Qualquer que o servir fielmente receberá recompensa.

         Nunca esqueçamos de que o nosso Deus não é apenas gracioso, nem apenas justo; o Seu caráter revela tanto graça quanto justiça. Salvar pecadores é o Seu ato de graça; recompensar os santos é o Seu ato de justiça. Nós anteriormente observamos que o livro de Apocalipse expressa a justiça de Deus. Saber a diferença entre salvação e recompensa é essencial para o entendimento desse livro. Senão seria difícil explicar o justo tratamento de Deus com os santos que é delineado nestas páginas.

         Através de João, Deus deu a palavra da vida eterna. No seu Evangelho, ele mostra o caminho para a vida eterna. Nas suas epístolas, ele descreve as manifestações da vida eterna. Mas no livro de Apocalipse, ele revela o julgamento dos salvos. E por essa razão o último livro da Bíblia toca muito pouco na questão da salvação dos que crêem e toca muito fortemente na questão da sua recompensa. Suas páginas  falam de justiça, e o galardão é um ato de justiça de Deus. Ao lermos os capítulos 2 e 3 nós não vemos a questão da salvação, mas vemos a vida cristã, as obras dos crentes e a sua vitória. Tal conhecimento nos ajudará  a entender o sentido não apenas desses dois capítulos, mas também de todo o livro.

Quatro Julgamentos

Havendo estabelecido a diferença entre salvação e recompensa, nós agora podemos tocar em um problema relacionado – o assunto do julgamento. Sem julgamento, como pode ser determinado quem é salvo e quem não é? Sem julgamento, como se pode saber quem será recompensado e quem sofrerá perda? A Bíblia revela para nós quatro tipos de julgamento: (1) o Senhor Jesus foi julgado por nós na cruz; (2) os crentes serão julgados de acordo com as suas obras diante do trono do julgamento de Cristo; (3) as nações serão julgadas na terra (Mat. 25.31-46); e (4) o julgamento de Deus sobre os mortos (ou, o julgamento do grande trono branco) (Rev. 20.11-15). Desses quatro julgamentos, um já passou, mas três estão vindo no futuro. Todos os que quiserem crer no Senhor Jesus Cristo como seu Salvador terão seu problema dos pecados resolvido para sempre, e isso é o efeito de Cristo ter sido julgado pelos pecados na cruz. Portanto, eles são salvos, eles receberam a vida eterna, e não mais serão julgados (ver João 3.18, Rom. 8.1). Eles não serão mais julgados pelos pecados porque o Senhor Jesus já sofreu por eles na cruz.

Mas apesar do fato de que os crentes não serão julgados pelos pecados, a Bíblia indica que eles ainda serão julgados (2 Cor. 5.10; Rom. 14.10-12; Mat. 25.14-30; 1 Cor. 3.10-15; etc.). Que julgamento é esse? Não é aquele que julga se alguém é salvo ou perece, já que essa questão já foi resolvida pelos crentes através da cruz. Além do mais, 1 Coríntios 3.15 declara que nesse julgamento não há perigo de que alguém pereça. Por essa razão, esse julgamento é aquele julgamento das obras dos santos. O julgamento da cruz conclui a nossa vida como pecadores. O trono do julgamento de Cristo conclui as nossas vidas como crentes.

Diante do trono de julgamento de Cristo nós seremos examinados de acordo com as vidas que vivemos do dia em que primeiro cremos no Senhor em diante. Pecados que foram confessados não serão mencionados. Alguns crentes terão servido o Senhor fielmente – tendo sofrido muito e abandonado todas as coisas, tendo feito a vontade Deus sem nenhum motivo que não fosse agradá-lO. Essas pessoas serão recompensadas e reinarão com Cristo em glória indizível.  Quão grande e bom isso será! Pois o coração do Senhor será agradado, e eles receberão glória. Busquemos isso! Alguns outros poderão ter hesitado algumas vezes, mas se eles confessarem os seus pecados, o precioso sangue os limpará a fim de que eles possam renovar a sua busca e seguir o Senhor ao longo do caminho estreito da cruz. Esses dois receberão o Seu galardão. Quanto aos outros, no entanto, eles podem não ter pecado, mas as suas obras são como madeira, feno e palha, já que eles buscaram pela aprovação de homens e trabalharam com um motivo duplo. Esses não serão recompensados de maneira nenhuma, mas sofrerão tremenda perda. E ainda haverá outros que, depois de terem sido salvos, continuaram cometendo muitos pecados – sem confessá-los ou se arrepender deles; tais pessoas receberão punição em lugar de recompensa. Embora a sua salvação eterna seja uma questão inabalável, eles serão severamente disciplinados pelo Senhor. Apocalipse 1-3 revela atitude do senhor julgando os Seus santos. É o prelúdio do trono do julgamento de Cristo.

O terceiro desses quatro julgamentos – o julgamento das nações – será determinado pela maneira como cada nação terá tratado os Judeus durante a Grande Tribulação. Esse julgamento acontecerá no final da Tribulação, mas antes do começo do reino milenar. Aquilo que Apocalipse 16.12-16 e 19.11-21 descrevem que acontecerá faz referência a esse julgamento.

O quarto e final julgamento é aquele do grande trono branco – que é o julgamento de Deus sobre os mortos (ver Apoc. 20.11-15).

Já que o livro de Apocalipse fala tanto de julgamento, estar inteirado acerca desses julgamentos encontrados nas Escrituras nos ajudará a entender os diferentes julgamentos mencionados nesse livro final da Bíblia.